
Integrante da Coordenação Doutrinária do Ministério Verbo da Vida.
Quantos já não ouviram a frase “texto fora de contexto é pretexto”? Muitos não sabem, mas, originalmente, nossas Bíblias não foram escritas divididas em capítulos e versículos. Essa divisão só veio posteriormente.
Destaco esse ponto importante, porque muitos não têm a sensibilidade ou não procuram se atentar ao contexto das passagens. Espero que este texto ajude você a entender a importância de considerar o contexto.
Contexto literário
Como devemos interpretar uma frase, ou versículo, ou um parágrafo na Bíblia? O princípio básico da hermenêutica bíblica é que o sentido pretendido de qualquer passagem é aquele que é coerente com o sentido do contexto literário do qual ele faz parte. Por isso, o primeiro teste pelo qual toda interpretação proposta tem que passar é este: ela combina com o contexto literário? Na literatura, o contexto de toda passagem específica é o material que vem logo antes e logo depois dela. O contexto de uma frase é o parágrafo, o contexto do parágrafo é a série de parágrafos que o antecedem e o sucedem, e o contexto do capítulo é os capítulos vizinhos.
Finalmente, o livro inteiro onde uma passagem aparece é o seu contexto dominante. Ao se interpretar uma passagem na Bíblia, o Testamento no qual ela ocorre e, finalmente, o cânon de todos os sessenta e seis livros proporcionam o contexto literário máximo no qual todas as passagens têm que ser entendidas. Portanto, contexto é o todo no qual alguma parte se encontra. Em termos literários, o contexto é o todo maior dentro do qual o texto ou a passagem específica se localiza.
Por que devemos atentar ao contexto?
Quase todos passamos pela frustração de ter algo que falamos “tirado do contexto”. Os equívocos surgem com certeza quando as pessoas ouvem apenas parte do que foi dito e baseiam o seu entendimento nisso. O mesmo se aplica à Bíblia. Afirmar que ela ensina que “Deus não existe”, torcendo as palavras, retirando-as do contexto de Salmos 14.1, claramente viola o contexto da citação: “Diz o tolo no seu coração: ‘Deus não existe’”.
Na verdade, se os escritores bíblicos estivessem vivos, eles frequentemente “sem dúvida protestariam bem alto que eles foram tirados do contexto, no momento em que os cristãos citam versículos bíblicos individuais e os aplicam a sua vida, violando o contexto bíblico. Interpretar de forma incorreta uma passagem bíblica tem consequências sérias. Temos que interpretar todas as passagens de forma consistente com o seu contexto por três razões principais:
- O contexto traz o flux o do pensamento;
- O contexto proporciona o sentido preciso das palavras;
- O contexto define os relacionamentos corretos entre os termos da oração: as palavras, as orações
e os parágrafos.
O fluxo de pensamento
O fluxo do pensamento é uma sequência de ideias conectadas que o autor estrutura para transmitir um conteúdo específico. Em uma comunicação eficaz, há um desenvolvimento lógico, onde cada ideia conduz naturalmente à seguinte. Uma afirmação prepara o terreno para a próxima, e as palavras usadas emergem do que foi dito antes, guiando para o que virá a seguir. Em geral, as pessoas não se expressam com ideias soltas e aleatórias, mas sim com conceitos interligados em
uma sequência lógica. Por isso, retirar uma passagem de seu contexto interrompe o fluxo de pensamento do autor e distorce seu sentido original.
O sentido preciso das palavras
A maioria das palavras possui mais de um significado. O contexto literário é o recurso mais confiável para determinar qual sentido é o mais adequado em uma determinada situação. Em condições normais, nossa mente automaticamente escolhe o significado que faz mais sentido com o tema abordado. A confusão surge quando o contexto literário é ambíguo ou quando múltiplos significados se encaixam igualmente bem. Nesse caso, é necessário parar e refletir sobre os diferentes sentidos possíveis ou analisar o contexto com mais atenção. Em seguida, deve-se escolher o significado que mais provavelmente o autor quis transmitir.
Por exemplo, ao ouvir a frase: “Essa foi a maior tromba que eu já vi!”, não temos contexto suficiente para saber de qual “tromba” se trata. A expressão pode se referir ao nariz comprido de um animal, a uma cara mal-humorada ou a um desfiladeiro formado por águas. No entanto, se estivermos lendo um texto sobre animais em um zoológico, provavelmente imaginaremos a tromba de um elefante. Já se lermos um diálogo entre amigos, poderíamos pensar em uma expressão de rosto zangado. E se dissermos que a erosão criou uma grande tromba, a imagem de um desfiladeiro será a que faz mais sentido. Portanto, o contexto literário é o que determina o significado exato da palavra.
O contexto define os relacionamentos corretos entre as unidades: palavras, sentenças, parágrafos.
Olhando como um todo
A terceira razão pela qual a interpretação correta tem que entrar em harmonia com o contexto é que a maior parte dos livros bíblicos (ou partes deles), foi escrita e preservada como documentos completos com a intenção de serem lidos como parte de uma unidade. Os escritores bíblicos redigiram ou editaram as frases e parágrafos individuais como partes de documentos maiores. Apesar da “aparência” de muitas Bíblias, os escritores bíblicos não pretendiam que os versículos subsistissem como entidades isoladas e independentes. As frases e parágrafos compõem unidades individuais de obras literárias maiores, e os intérpretes têm que entendê-los de acordo com a sua relação com o argumento geral do livro.
Vale destacar, as divisões em capítulos e versículos, que geralmente são úteis, se tornam um dos maiores obstáculos no processo da interpretação bíblica. Temos que lembrar que essas divisões não existiam nos documentos originais. Algumas divisões de versículos já existiam nos primeiros séculos depois de Cristo, ainda que tenham variado bastante em muitas passagens.
Por volta do século IX e X d.C., as divisões em versículos começaram a aparecer na Bíblia Hebraica dos judeus massoretas. Diz F . F . Bruce: “A divisão padronizada em versículos do Antigo Testamento que se estende até os dias de hoje e que se encontra na maior parte das traduções, bem como no original hebraico, foi estabelecida pela família massorética de Ben Asher por volta do ano 900. Ele acrescenta que “a divisão em capítulos, por outro lado, foi feita bem mais tarde, e foi primeiramente realizada pelo cardeal Hugo de Saint-Cher em 1244”. Outros atribuem a divisão em capítulos a Stephen Langton, professor da Universidade de Paris e posteriormente Arcebispo de Cantuária, em 1228.
Analise o sentido das palavras
Três séculos depois, em 1560, Robert Estienne (Stephanus), um editor e impressor parisiense, acrescentou a numeração atual de versículos em sua quarta edição do NT grego (que também continha duas versões latinas). A sua edição da Vulgata latina de 1555 foi a primeira Bíblia da era moderna a utilizar tanto a divisão em capítulos quanto a divisão em versículos.
Apesar de estas divisões terem a intenção de ajudar, até mesmo uma leitura casual da Bíblia revela que as divisões em capítulos e versículos frequentemente estão mal colocadas; muitas vezes um novo versículo começa no meio das frases, e as mudanças de capítulo de vez em quando interrompem o pensamento de um parágrafo. As referências em capítulo e versículo nos ajudam a identificar e localizar as passagens de forma rápida, mas infelizmente contribuem para a prática bem difundida de elevar os versículos individuais à categoria de unidades independentes de pensamento.
O leitor é tentado a ler cada versículo como uma expressão completa da verdade. Retirado do seu contexto, o versículo isolado pode assumir um significado que o escritor nunca quis transmitir. Para ser classificada como o sentido proposto pelo texto, a interpretação tem que ser compatível com o fluxo de pensamento e com a intenção específica do contexto imediato e do contexto maior do livro.

