
Integrante do Departamento da Família
Ética é o ramo da filosofia que estuda os princípios que orientam o comportamento humano, diferenciando o certo do errado, o justo do injusto e o bem do mal. A palavra tem origem no grego etos, que significa hábito ou modo de ser. Ela busca compreender o caráter e as reflexões sobre as ações humanas, indo além das regras impostas pela sociedade.
Para o cristão, isso tem um significado ainda mais profundo: existe uma regra estabelecida por Deus que é superior ao que a sociedade tenta impor. Por isso, a Bíblia não pode ser tratada como uma verdade relativa. Como está escrito em Salmos 138.2, Deus estabeleceu acima de todas as coisas o seu nome e a sua palavra. Não há como separar Deus da sua palavra.
O que é ética cristã?
Ética cristã é o conjunto de princípios morais e valores baseados na Bíblia, no Antigo e no Novo Testamento, e nos ensinamentos de Jesus Cristo, visando guiar o comportamento humano para a santidade, o amor ao próximo e o amor a Deus.
Esse amor ao próximo, porém, não é o amor que o mundo contemporâneo tem pregado como aceitação irrestrita de tudo. É o amor da maneira que Deus ama: um amor que provoca e promove transformação, não conformismo. A ética cristã estabelece o que Deus aprova ou desaprova, servindo como padrão de conduta. Não podemos ser movidos por modismos, ideologias ou até mesmo por autoridades que vão de encontro ao que Deus estabeleceu.
Em diversas passagens do livro de Atos, os discípulos afirmaram diante de situações adversas: “Importa mais obedecer a Deus do que aos homens.” Esse é o posicionamento firme que caracteriza a ética cristã.
O perigo da omissão: o exemplo de Pilatos
Em Mateus 27.11-24, encontramos o relato do julgamento de Jesus diante de Pôncio Pilatos. Sabendo que Jesus era inocente e que havia sido entregue por inveja, Pilatos cedeu à pressão do povo e lavou as mãos, declarando: “Estou inocente do sangue deste justo.”
Essa expressão, “lavar as mãos”, representa uma omissão e uma transferência de responsabilidade diante de uma injustiça. Pilatos estava diante da verdade. Em João 18.37, Jesus afirma: “Para isso nasci e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade.” Ainda assim, Pilatos preferiu agradar ao povo a se posicionar de acordo com o que era certo. As consequências foram graves: ele foi destituído do cargo entre os anos 36 e 37 d.C., perdeu sua proteção, foi exilado e, segundo registros históricos, cometeu suicídio.
O profeta Isaías já havia alertado sobre esse tipo de inversão de valores: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem mal, que fazem das trevas luz e da luz trevas, que fazem do amargo doce e do doce amargo” (Isaías 5.20). Esse alerta, dado em um contexto de crise de identidade de Judá e Jerusalém, permanece extremamente atual.
Saul e a meia obediência
Outro exemplo bíblico marcante é o do rei Saul, que foi omisso e demonstrou apenas meia obediência a Deus, com medo de perder a afeição do povo. Para Deus, meia obediência não é obediência, assim como não existe meia verdade. O resultado foi a perda do seu reinado.
Se não nos posicionarmos de acordo com os princípios divinos, valorizando o que a Bíblia ensina e transmitindo isso aos nossos filhos, corremos o risco de perder o “reinado” dentro de nossas próprias casas e famílias.
A responsabilidade dos pais
A responsabilidade de educar os filhos não é da igreja nem da escola. É dos pais. Não podemos terceirizar essa responsabilidade. E hoje, em um tempo em que a palavra influencer se tornou até uma profissão, vale perguntar: quem é o maior influenciador dos seus filhos? Você, como pai ou mãe, ou são pessoas e conteúdos que encontram nos meios digitais?
Pesquisas apontam que 70% dos jovens que se declaram cristãos e entram na universidade abandonam a fé antes de sair. Os motivos identificados incluem conflitos ideológicos e doutrinação, um processo que, segundo Mateus 24.3-4, Jesus chamou de engano. A palavra usada no grego é planáo, que significa fazer alguém se desviar do caminho reto, induzir ao erro, afastar da verdade.
Em 1 Timóteo 4.1, Paulo escreve: “O Espírito afirma expressamente que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios.” Esse apostatar não acontece de forma abrupta, mas de maneira lenta e gradual, um passo de cada vez, distanciando-se da verdade.
Política e cristianismo: é possível separar?
Uma das formas mais comuns de omissão cristã é acreditar que “política e religião não se misturam.” Essa ideia, na verdade, é contrária ao testemunho das Escrituras.
Política é a atividade humana voltada para a organização, a administração e a condução de sociedades, envolvendo a gestão de poder e a resolução de conflitos para o bem comum. Quando os cristãos se afastam dessa esfera, deixam um espaço vazio que será ocupado por outras influências.
No Antigo Testamento, vemos que Deus sempre esteve envolvido com as questões políticas por meio de pessoas chamadas por Ele. José governou o Egito e, por meio dessa posição, preservou nações inteiras. Deus levanta pessoas para diferentes esferas, inclusive a política, porque política é influência, e influência molda a vida das pessoas.
O filósofo Charles Spurgeon afirmou: “Só os tolos acreditam que política e religião não se discutem. Por isso, os ladrões permanecem no poder e os falsos profetas continuam a pregar.”
Discursos enganosos: o caso de Judas
João 12.1-6 apresenta um exemplo poderoso de discurso enganoso. Quando Maria ungiu os pés de Jesus com um perfume valioso, Judas Iscariotes protestou: “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?” Parecia um argumento nobre. Mas o texto deixa claro: “Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres, mas porque era ladrão.”
Existe um padrão histórico: quem tem interesse em se apropriar do que não lhe pertence frequentemente usa um discurso voltado para os mais pobres como justificativa. O crente precisa aprender a analisar não apenas o discurso, mas a motivação por trás dele.
Ideologias que confrontam o cristianismo
O comunismo e o socialismo marxista, em seus fundamentos, convergem em vários pontos que se opõem diretamente à fé cristã:
Materialismo e ateísmo: Essas ideologias partem da premissa de que a matéria é a única realidade, negando a existência de Deus, da alma e da vida após a morte. O marxismo considera a religião uma forma de alienação, uma distração das pessoas da “realidade material.”
Coletivismo contra o indivíduo: O cristianismo valoriza a dignidade individual e a liberdade de consciência, o livre-arbítrio. Já o comunismo e o socialismo marxista focam no coletivismo, onde o indivíduo é visto apenas como parte do todo, o que, na prática, destrói a liberdade individual.
Oposição à família tradicional: O comunismo vê a estrutura familiar tradicional, formada por homem, mulher e filhos, como uma instituição que gera identidade própria e fidelidade fora do Estado. O Manifesto Comunista, desde 1848, propõe abertamente a abolição da família nos moldes tradicionais. A fé cristã reforça essa estrutura, tornando-se alvo dessas ideologias.
Soberania do Estado versus soberania de Deus: O cristianismo ensina que a soberania máxima vem de Deus. O comunismo busca transferir essa autoridade para o Estado, tornando-o o único provedor e regulador da moralidade, inclusive sobre os filhos e as famílias.
Moral utilitária: Enquanto o cristianismo baseia sua moral na Bíblia e na fé, o comunismo define sua moral com base no que é útil para a revolução, o que abre espaço para que os fins justifiquem os meios.
A família como alvo
Uma das estratégias centrais das ideologias marxistas é a desconstrução da família tradicional, pois ela é vista como um obstáculo ao controle coletivista. Isso se manifesta de formas variadas na cultura contemporânea, na educação, na mídia e nas políticas públicas.
Pais e mães precisam estar atentos ao que seus filhos estão aprendendo, com quem estão convivendo e quais valores estão sendo formados. Não basta confiar cegamente em instituições, mesmo aquelas que se declaram cristãs. A responsabilidade de formar o caráter e a fé dos filhos é, antes de tudo, dos pais.
Posicionamento é essencial
A moderação na defesa da verdade é um serviço prestado à mentira. Não nos posicionar diante das questões que afetam nossa família, nossa fé e nossa sociedade é uma forma de omissão, e a omissão tem consequências reais, como a história de Pilatos e de Saul nos mostram.
A ética cristã não é uma teoria abstrata. É um conjunto de princípios e valores bíblicos que deve se expressar em nossa vida cotidiana, em como criamos nossos filhos, em como nos relacionamos com a sociedade e em como exercemos nossa cidadania. Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de um país e cidadãos do céu, e em ambas as dimensões somos chamados a não lavar as mãos diante da verdade.
*Trechos da mensagem do dia 29 de abril de 2026, na Escola de Pais.

