
Integrante da Coordenação do Departamento Infantil
Imagine um carro recém-saído de fábrica. Ele já vem com o acelerador pronto, mas o freio ainda está em desenvolvimento. Essa é uma boa imagem para entender o funcionamento do cérebro infantil. O acelerador representa as emoções, os desejos e os impulsos: a vontade de falar, de correr, de pegar algo na hora. O freio representa o córtex pré-frontal, a região do cérebro responsável pelo autocontrole, pela atenção, pelo planejamento, pela espera e pela regulação emocional.
A neurociência mostra que essa parte do cérebro não vem pronta na infância; ela se desenvolve aos poucos, ao longo dos anos. Entender isso muda a forma como se olha para o comportamento das crianças. Não se trata de mau comportamento proposital, mas de um processo natural de desenvolvimento. Essa compreensão abre espaço para mais empatia e mais paciência no trato com elas.
Por que as crianças agem por impulso
É comum que crianças interrompam, falem sem pensar, empurrem, corram ou peguem objetos sem pedir. Isso não acontece porque elas sejam malcriadas, mas porque ainda estão aprendendo a controlar o impulso. Como o freio ainda não está plenamente desenvolvido, a vontade tende a vir primeiro e a ação segue direto atrás dela.
Diante disso, o erro mais comum de quem lida com crianças é responder também por impulso: gritar mais alto, repreender com dureza, perder a paciência. Quando uma criança está emocionalmente ativada, seu cérebro entra em modo de sobrevivência. Nesse estado, ela aprende menos, escuta menos e raciocina menos. A correção excessivamente dura, paradoxalmente, tende a aumentar a desorganização em vez de resolvê-la. A solução não está na dureza, mas em ferramentas práticas que ajudem a criança a se organizar por dentro.
Ensinar é o caminho
Provérbios 22.6 orienta a ensinar a criança no caminho em que deve andar. A palavra-chave é ensinar: a criança ainda não sabe, e por isso precisa aprender. A boa notícia é que a regulação emocional pode, sim, ser ensinada.
O primeiro passo é a conexão antes da correção. Diante de uma criança agitada, antes de corrigir, vale se aproximar e nomear o que se observa: “percebo que você está bem animado hoje, o que está acontecendo?”. Esse gesto simples cria segurança emocional. Quando a criança se sente compreendida, ela consegue receber melhor as orientações que vêm em seguida.
Outra estratégia é direcionar para o comportamento esperado, sempre com instruções positivas. O cérebro infantil entende melhor o que deve fazer do que o que não deve fazer. Em vez de “não corra” ou “não grite”, funciona melhor dizer “vamos andar devagar” ou “vamos falar baixinho”. Crianças tendem a seguir a ação que é apresentada a elas.
Treinar a pausa também ajuda bastante. Criar um sinal simples, como levantar a mão para que todos parem e respirem, fortalece com a repetição os circuitos do autocontrole. Quanto mais esse tipo de prática é repetido, mais a impulsividade tende a diminuir.
Previsibilidade, regras claras e reforço positivo
Antecipar situações difíceis é outra ferramenta importante. Avisar com antecedência o que vai acontecer, por exemplo antes de uma atividade recreativa, ajuda o cérebro infantil a se organizar, porque ele responde melhor quando sabe o que esperar. Essa previsibilidade transmite segurança.
Da mesma forma, é fundamental deixar claros os combinados e as regras: levantar a mão para falar, esperar o horário certo para beber água ou ir ao banheiro. Muitas vezes a regra está clara para o adulto, mas não foi de fato comunicada à criança. A disciplina preventiva, construída sobre combinados bem explicados, é mais eficiente do que a disciplina apenas corretiva.
Por fim, elogiar o autocontrole quando ele acontece reforça o comportamento desejado. O elogio funciona melhor quando é específico, voltado ao esforço, à atitude ou ao progresso da criança, e não a rótulos vagos como “inteligente” ou “capaz”.
Além do comportamento
Nem toda impulsividade tem a mesma origem. Às vezes há algo mais profundo por trás do comportamento de uma criança: uma separação dos pais, o desemprego de um dos responsáveis, ou mesmo uma condição neurodivergente. Cabe observar com atenção, sem a pretensão de diagnosticar, mas buscando sempre mais ferramentas para lidar com cada situação.
Autocontrole é fruto do Espírito. O papel de quem ensina crianças não é controlar comportamentos, tarefa que pertence aos pais, mas inspirar e direcionar, formando pessoas capazes de se governar por dentro. Quem atua com crianças não é apenas transmissor de conteúdo bíblico, mas formador de caráter, ajudando cada criança a desenvolver o domínio próprio que um dia lhe permitirá viver os princípios da fé com maturidade.
*Trechos da mensagem do dia 27 de junho de 2026, na Conferência Privilégio.

