
Professora do Centro de Treinamento Bíblico Rhema
A palavra de Deus funciona como um espelho. Cada vez que alguém se dispõe a ouvi-la, é convidado a se verificar, a se avaliar. E se esse espelho mostrar que algo precisa ser ajustado, a resposta esperada é a mesma que qualquer pessoa tem ao se olhar num espelho e perceber que algo está fora do lugar: agir com rapidez. Não sair daquele jeito. Trocar o que precisa ser trocado.
O lar vai além de quatro paredes
Todos têm um lugar para morar, mas morar é diferente de visitar. Nenhum cadastro pergunta onde alguém está de passagem; a pergunta sempre é onde a pessoa vive, qual é o seu endereço. O lar precisa ser muito mais do que um número de CEP, do que um teto, uma cama ou uma refeição. Deve ser o refúgio para o qual se deseja voltar. Casa é feita de tijolos, mas lar é feito da forma como as pessoas se relacionam dentro dela.
Família é lugar de paz. Mas por que essa não é a realidade de todos? Porque a paz não se faz sozinha. A Palavra de Deus é clara: a forma como as pessoas se comunicam dentro de casa está diretamente ligada ao ambiente que elas mesmas constroem ao redor.
“Quanto ao mais, tenham todos o mesmo modo de pensar. Sejam compassivos, amem-se fraternalmente, sejam misericordiosos e humildes. Não retribuam mal com mal, nem insulto com insulto.” E conclui: “Busque a paz e esforce-se para mantê-la” (I Pedro 3.8-11).
A paz, portanto, exige esforço. Exige sair do terreno da reação, pensar antes de falar, resistir ao impulso de devolver ofensa com ofensa. Quando dois se engajam no que pode ser chamado de “ping-pong da carnalidade”, a paz simplesmente vai embora.
“A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira” (Provérbios 15.1).
“O homem iracundo suscita contendas, mas o longânimo aplaca a discussão” (Provérbios 15.18).
As palavras deixam marcas
Há quem não grite, mas mate na unha. O sarcasmo e a ironia não aumentam o volume da voz, mas machucam do mesmo jeito. O tom, a escolha das palavras e a forma como são ditas determinam o ambiente construído dentro de casa.
A literatura psicológica aponta os impactos emocionais e comportamentais na vida de crianças que crescem em ambientes de conflito constante: ansiedade, insegurança afetiva, tristeza, dificuldade de concentração, problemas de sono. Desse modo, uma criança que apresenta dificuldade para aprender nem sempre tem um transtorno. Muitas vezes, está sendo vítima do cenário que existe dentro da sua própria casa. O mundo da criança é puro. Os adultos não têm o direito de transformá-la em telespectadora de desrespeito e briga.
O perdão como antídoto
Além disso, palavras mal usadas fazem um estrago grande e o único antídoto apresentado pela Bíblia é o perdão. Em Mateus 18, Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar o irmão, sugerindo sete vezes, o dobro do que os rabinos ensinavam, acrescido de um. Jesus responde: não sete, mas setenta vezes sete. Não se trata de uma tabela de controle, mas de uma linguagem de hipérbole que revela uma verdade do reino: no que diz respeito ao perdão, não há limite. Quem ainda conta quantas vezes perdoou, provavelmente ainda não perdoou nem a primeira.
Como filhos de Deus, existe uma capacidade que vai além do natural: a de não segurar ofensa, não guardar mágoa, não cultivar ressentimento. Romanos 5.5 diz que o amor de Deus já foi derramado no coração de quem crê. Assim, esse amor é o que torna o perdão possível.
Jesus precisa aparecer dentro de casa
O Príncipe da Paz habita em quem fez aliança com Jesus. Mas Ele aparece dentro dos lares por meio das pessoas que n’Ele creem. Quando os filhos são pequenos, os pais são a primeira “Bíblia” que eles leem. Assim, a vida que está por dentro precisa sair nos atos, nas palavras e nas reações cotidianas.
Ademais, ninguém nasce grosseiro ou mal-educado. Comportamentos são aprendidos, e podem ser transformados. O primeiro passo é reconhecer a necessidade de mudar. O segundo é buscar Aquele que tem o poder de colocar a mão na raiz dos problemas e transformar de verdade. Se a casa até hoje foi lugar de confusão, ela pode ser diferente. A gentileza que se derrama em público precisa ser a mesma que se derrama dentro de casa. O que não for assim é encenação.
Por fim, família é lugar de paz. E essa paz se constrói, palavra por palavra, atitude por atitude, todos os dias.
*Trechos da mensagem do dia 29 de maio de 2026, na Conferência da Família.

