
Presidente da Verbo da Vida Sede
A história do profeta Samuel, registrada no primeiro livro que leva seu nome, começa com uma família fiel a Deus. Seu pai, Elcana, e sua mãe, Ana, que era estéril, subiam todos os anos de Efraim até a cidade de Siló para oferecer sacrifícios ao Senhor no tabernáculo. Naquela época, antes de Jerusalém se tornar a capital de Israel, era em Siló que estava levantado o tabernáculo de Moisés, e para lá, o povo se dirigia diante dos sacerdotes.
Ana fez um voto: se Deus lhe concedesse um filho, ela o consagraria ao Senhor. O sacerdote Eli anunciou que seu pedido seria atendido, e assim aconteceu. Pouco depois de Samuel ser desmamado, provavelmente por volta dos três anos de idade, Ana o levou até Eli, em Siló. A partir de então, seriam os pais a visitá-lo apenas uma vez por ano e Eli passaria a cuidar daquela criança.
Eli era o sumo sacerdote daquele tempo e também juiz em Israel, um dos governantes que conduziam o povo antes da instituição da monarquia. Foi, de fato, o penúltimo juiz, sucedido pelo próprio Samuel. Apesar de toda a sua importância, o maior legado que Eli deixou não veio do sacerdócio, nem do governo, mas do cuidado dedicado a uma criança que nem era seu filho.
Um ambiente difícil e um cuidado fiel
Samuel cresceu em meio a um ambiente carregado. Os filhos de Eli, que também eram sacerdotes, não eram homens de bom caráter. Subornavam as pessoas e roubavam dos sacrifícios que o povo trazia, tornando a cidade um lugar marcado por sua má influência. Mesmo assim, Eli protegeu Samuel desse tipo de ambiente e o instruiu nos caminhos do Senhor.
Há nisso uma lição. As crianças não vivem dentro da igreja. Elas vêm de lugares, ambientes e influências muito diferentes. Quando chegam, porém, encontram alguém disposto a cuidar delas, a instruí-las e a ensiná-las. Eli não cuidou bem dos próprios filhos e Deus chegou a julgá-lo por isso, mas na vida de Samuel acertou e fez muita coisa boa.
Ensinar a servir e a ouvir a Deus
Uma das primeiras coisas que Eli fez foi incentivar Samuel a servir ao Senhor. As Escrituras repetem essa ideia em diferentes momentos, mostrando que o menino ministrava diante do Senhor, ainda na infância, vestido com uma estola sacerdotal de linho. Eli sabia que Samuel jamais seria sacerdote, pois era da tribo de Efraim, e não de Judá. Ainda assim, ensinou-lhe aquilo que sabia fazer de melhor: a importância de servir e de ministrar diante de Deus.
Em um tempo em que a Palavra do Senhor era rara e as visões não eram frequentes, Deus chamou Samuel por três vezes durante a noite. O menino, sem ainda conhecer o Senhor, corria até Eli pensando que era ele quem o chamava. Eli foi paciente com aquela imaturidade. Não desprezou a experiência nem a tratou como invenção da criança. Manteve-se atento e, percebendo que era Deus quem falava, instruiu Samuel a responder: “Fala, Senhor, que o teu servo ouve”.
Esse cuidado em estar atento é fundamental. As experiências das crianças acontecem na medida da maturidade delas. Sem atenção, é fácil tratar como irrelevante aquilo que, na verdade, é o início de um chamado.
Coragem para falar o que Deus diz
A mensagem que Samuel recebeu foi dura: um julgamento sobre o próprio Eli. No dia seguinte, o menino teve vergonha de falar, mas Eli o encorajou a contar tudo, sem esconder nada. Mesmo suspeitando que o recado era contra si, não privou Samuel daquela experiência nem tentou enganá-lo. Incentivou a criança a ouvir de Deus e a falar o que ouvia, ainda que fosse algo difícil contra alguém que amava.
Esse aprendizado marcou o ministério de Samuel, que mais tarde teve coragem de confrontar reis para corrigir seus erros. Foi no cuidado recebido na infância que ele aprendeu a ser ousado e sensível à voz de Deus. Quando se ensina uma criança, pode-se estar formando o próximo evangelista, pastor, empresário ou juiz que influenciará positivamente muitas vidas. Samuel viria a ser o juiz que trouxe estabilidade a Israel, o profeta que fundou a escola de profetas e que ungiu os primeiros reis da nação.
Um lugar de exercer o chamado
Eli não era apenas um cuidador de crianças. Era sumo sacerdote e juiz, e foi exercendo essas funções que inspirou Samuel. Da mesma forma, o Departamento Infantil não é somente um lugar para cuidar de crianças, mas também para que cada servo exerça o chamado que Deus lhe deu.
Em Romanos 12, Paulo ensina que, embora sejamos muitos, formamos um só corpo em Cristo, com dons diferentes repartidos a cada um. Há quem ensine, quem exorte, quem contribua, quem exerça misericórdia. Em Atos 6, vemos homens cheios do Espírito levantados para um serviço muito específico, o cuidado com as viúvas de língua grega. Ainda assim, Estêvão pregava e operava milagres, assim como Filipe evangelizava cidades inteiras. O chamado específico não é pequeno nem desprezível.
Por isso, o Departamento Infantil também é lugar para apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Esses dons, descritos em Efésios 4, foram dados para todo o Corpo e as crianças também fazem parte desse Corpo. Quem cuida delas não se torna pastor apenas quando passa a atuar entre adultos. Já é pastor, mestre e profeta naquele lugar.
À medida que a igreja cresce, o serviço de cada um se torna mais específico. São necessários pastores que cuidem das crianças, dos pais e dos demais professores; mestres que ensinem a Palavra e alertem contra falsas doutrinas; apóstolos que fundamentem a doutrina e a visão; evangelistas que inspirem as crianças a anunciar o Evangelho; e profetas que as estimulem a se mover nos dons do Espírito. Às vezes é justamente uma criança, ensinada com graça e sabedoria, quem consegue transmitir aos pais uma verdade que eles ainda não haviam compreendido.
Zelo pela unção recebida
Há uma unção sobre a vida de quem foi guiado por Deus para estar com as crianças. Como Paulo orientou Timóteo, ninguém deve ser negligente para com o dom que está em si. É preciso meditar nesse dom, entregar-se a ele e depender da unção, e não apenas de técnicas aprendidas. É essa unção que torna possível ganhar as crianças difíceis, estar atento ao que antes passava despercebido e reconhecer os chamados que Deus deseja desenvolver desde cedo.
Esse chamado não se restringe a quem vive integralmente do ministério. Quem trabalha também é pastor, profeta, mestre e evangelista. Resta a cada um descobrir o lugar onde exercerá aquilo que Deus lhe confiou. Para muitos, esse lugar começa com as crianças. Pode ser apenas o início de uma caminhada ou pode ser o lugar de uma vida inteira, mas é ali que o chamado se manifesta. Que cada servo permaneça atento, pois Deus age sobre aqueles que estão alertas à sua voz, assim como Eli ensinou Samuel a estar.
*Trechos da mensagem do dia 26 de junho de 2026, na Conferência Privilégio.

