
Integrante da Coordenação Doutrinária do Ministério Verbo da Vida
Existe um risco silencioso que todo aquele que serve a Deus pode enfrentar. Não se trata de um desvio repentino nem do abandono da fé, mas de algo que ocorre de forma imperceptível. À medida que as agendas aumentam, as responsabilidades crescem e o ministério se desenvolve, a vida de devoção pode começar a se deteriorar sem que se perceba. A pessoa continua servindo, continua trabalhando, mas esquece o lugar do secreto, o lugar da intimidade. Esse perigo precisa ser tratado, porque Deus jamais instituiu o ministério para que ele substituísse a comunhão com Ele.
O crescimento medido pela devoção
No mundo, crescer significa tornar-se independente. Quanto mais autônoma a pessoa se torna, mais se entende que ela está progredindo. No reino dos céus, porém, a lógica é completamente diferente. O nosso crescimento precisa ser medido pela nossa devoção. É bom que cresçamos ministerialmente, que adquiramos habilidades e experiência ao longo dos anos, pois tudo isso é essencial para cumprirmos com excelência aquilo que Deus nos chamou a fazer. Ainda assim, há algo que não podemos perder de vista: por mais que avancemos, a nossa vida com Ele não pode diminuir e a nossa vida devocional não pode perder a intensidade.
As Escrituras revelam um padrão divino. Antes de enviar alguém, Deus primeiro o faz relacionar-se consigo. Foi assim com Moisés, a quem Deus primeiro se revelou. Foi assim com Josué, na tenda da revelação, e com Davi, nos campos de Belém. E foi assim com os discípulos, chamados primeiro para estarem com Cristo, em um tempo de comunhão e desenvolvimento relacional, para só depois serem enviados, revestidos de poder, até os confins da terra. O serviço precisa ser um reflexo do relacionamento, e não um substituto dele.
Águas profundas
A visão de Ezequiel 47 ilustra com clareza essa intenção de Deus. O texto descreve uma água que fluía do templo, e não de uma fonte natural ou do acúmulo das chuvas. Isso revela que Deus, de forma intencional, concede ao homem o meio pelo qual ele pode ter acesso à Sua presença e a uma vida de comunhão. À medida que o profeta avançava, conduzido por Deus, as águas subiam de nível: primeiro aos tornozelos, depois aos joelhos, depois aos lombos. Quando chegou às águas profundas, ele perdeu o contato com o solo e passou a ser conduzido pela força da correnteza.
É isso que Deus deseja para aqueles que o servem: ministros que sejam movidos pela correnteza do Espírito, que fluam em sua unção e atuem segundo as orientações que vêm do alto, e não apenas com base nas próprias experiências ou conhecimentos adquiridos. Toda experiência é válida e todo conhecimento é importante, mas nada disso pode substituir a dependência da unção do Espírito Santo. O maior patrimônio de um ministro não é o que ele sabe, o que adquiriu ou as oportunidades que tem, mas a sua vida de comunhão com Deus. Dessa intimidade nasce toda a graça capacitadora necessária para exercer o chamado com excelência.
O contraste entre Marta e Maria
Quando substituímos a comunhão pelo serviço, corremos o risco de repetir o erro de Marta, narrado em Lucas 10. Tanto Marta quanto Maria amavam a Jesus e desejavam honrá-lO, mas responderam de maneira distinta à Sua presença. Marta estava tão absorvida pelas tarefas que perdeu a oportunidade de desfrutar da presença do Senhor, enquanto Maria assentou-se aos seus pés para ouvi-lO. Ao corrigir Marta, Jesus em momento algum condenou o serviço, pois servir faz parte da vida cristã, e o próprio Cristo afirmou ter vindo para servir e não para ser servido. O problema não foi o trabalho, mas permitir que o trabalho ocupasse o lugar que pertencia ao relacionamento.
A progressão de Marta é reveladora. Ela começou servindo, depois ficou preocupada, em seguida ansiosa, então passou a reclamar da irmã e, por fim, questionou o próprio Cristo. Isso acontece quando deixamos de contar com o poder sobrenatural para atuar apenas na força do próprio braço. Aquilo que começou leve passa a trazer peso. Deus não deseja ver ninguém sobrecarregado ou reclamando daquilo que faz, mas que cada um desfrute da graça e cumpra o seu chamado com alegria no coração.
O primeiro amor
À igreja de Éfeso, em Apocalipse 2, Deus dirige uma palavra semelhante. Era uma igreja operante, ativa, perseverante, que não tolerava o erro e suportava provações por causa do nome de Cristo. Humanamente, não havia o que reprovar em sua produtividade. Jesus, porém, não olha apenas para aquilo que fazemos, mas para aquilo que motiva o que fazemos. Por isso elogiou o trabalho e a dedicação daquele povo, mas apontou o problema: haviam abandonado o primeiro amor. No original, a palavra traduzida por “abandonar” significa negligenciar, afastar-se de algo que antes era precioso. Eles não perderam a doutrina nem o serviço, mas esfriaram no relacionamento.
A comunhão com Deus nunca pode tornar-se o preço pago pelo crescimento ministerial. O ministério pode crescer e se desenvolver, mas a comunhão e o relacionamento precisam crescer junto. Por isso a palavra dirigida a Éfeso aponta um caminho: lembrar de onde se caiu, arrepender-se e praticar as primeiras obras. Arrepender-se aqui não significa viver de remorso, mas mudar a postura e não mais permitir uma vida ausente da comunhão. No reino de Deus não existe carreira solo. Temos um auxiliador, o Espírito Santo, que se opõe a tudo aquilo que tenta nos parar, que toma parte conosco em nossas fraquezas e que permanece até o fim, sem nos abandonar.
A chama que arde continuamente
Em Levítico 6, havia uma instrução clara: o fogo sobre o altar deveria arder continuamente e não se apagar, e o sacerdote tinha a responsabilidade de acender a lenha a cada manhã. Aquele fogo, enviado dos céus, simbolizava a presença contínua de Deus no meio do povo e cabia aos sacerdotes mantê-lo aceso diariamente. Da mesma forma, Paulo exorta em Efésios 5 a sermos cheios do Espírito, um verbo que carrega a ideia de continuidade. Recebemos gratuitamente a salvação, a justiça e o poder capacitador do alto, mas temos a responsabilidade de desenvolver aquilo que nos foi confiado. Deus não lerá a Bíblia por ninguém nem orará no lugar de cada um.
A oração não é apenas um meio de obter algo de Deus, mas um meio de relacionar-se com Ele. Não podemos viver do passado, como se as experiências de ontem bastassem para toda a caminhada. A vida com Deus é evolutiva, uma carreira de progressão em que, quanto mais nos relacionamos com Ele, maior se torna a intimidade, e quanto maior a intimidade, maior a sensibilidade espiritual. Essa sensibilidade nos permite distinguir a voz d’Ele em meio a tantas outras vozes, assim como um ouvido treinado reconhece um som familiar mesmo no meio do barulho. Deus não nos quer na superfície, mas em águas profundas, e o que nos sustenta nessa profundidade é a devoção, a comunhão e a intimidade com Ele.
Que ninguém permita que a rotina o afaste do lugar da comunhão, nem que o crescimento ministerial diminua a dependência de Deus. Sem Ele, nada podemos fazer. Como Moisés declarou, é melhor não seguir adiante caso a presença não vá conosco. A busca ao Senhor e o relacionamento com Ele são prioridade, e nenhuma agenda, função ou crescimento pode ocupar o lugar que pertence à adoração.
*Trechos da mensagem do dia 27 de junho de 2026, na Conferência Privilégio.

