
Líder do Departamento de Jovens da Igreja Sede
O Senhor tem nos conduzido a compreender verdades que já conhecemos, mas que ainda precisam ser plenamente vividas. A Palavra de Deus não muda. Ela é eterna. Porém, há momentos em que o Espírito Santo insiste em certos fundamentos, porque ainda existem áreas do nosso coração que precisam ser ajustadas, curadas e reposicionadas.
Hoje quero falar sobre paternidade. Mais especificamente, sobre a nossa identidade como filhos. Sabemos, biblicamente, que somos filhos de Deus. Conhecemos essa verdade. A Palavra afirma isso de forma clara e inquestionável. Contudo, conhecer a verdade não é o mesmo que viver como alguém que realmente acredita nela.
A Escritura nos ensina que Jesus veio como o Filho unigênito, o único. Mas, após o seu sacrifício, Ele passou a ser chamado de primogênito, o primeiro entre muitos irmãos. Por meio d’Ele, todos os que creem se tornaram filhos de Deus. Houve reconciliação entre Deus e a humanidade.
Somos justificados em Cristo
A Bíblia afirma: “A todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus.” “Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus.” “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.” “Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: sermos chamados filhos de Deus. E de fato somos.” “Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, Deus também o tornou herdeiro.”
Não há dúvida quanto a isso. A Palavra nos concede autoridade para vivermos como filhos. Somos justificados em Cristo. Podemos nos apresentar diante do Pai sem culpa, sem medo, sem condenação e sem constrangimento, como se o passado que nos afastava jamais tivesse existido. Essa é a nossa posição em Deus.
Entretanto, existem obstáculos que nos impedem de viver plenamente essa verdade.
Há pessoas que sabem que são filhas de Deus, mas ainda se comportam como órfãs. Vivem como se não fossem desejadas, como se não fossem dignas de estar na presença do Pai. Esse sentimento de orfandade gera limitações espirituais profundas. Muitas vezes, acreditamos que essa postura é humildade, mas, na verdade, trata-se de um entendimento equivocado que nos afasta de Deus. O Pai deseja nos atrair para perto, não nos manter à distância.
Uma mesa preparada para os filhos
Para compreender isso, podemos olhar para a história de Mefibosete. Ele era neto do rei Saul e filho de Jônatas. Tinha sangue real. Porém, ainda criança, sofreu um acidente que o deixou aleijado dos pés. Após a morte de seu pai e de seu avô, passou a viver escondido, longe do palácio, carregando marcas físicas e emocionais profundas.
Quando o rei Davi o chama à sua presença para demonstrar bondade, Mefibosete se prostra e diz: “Quem sou eu para que te preocupes com um cão morto como eu?”
Mesmo sendo herdeiro, ele não se via como digno. A dor, a perda e o trauma moldaram sua identidade. Ele tinha direito à mesa do rei, mas não se sentia merecedor. Essa história revela o que acontece quando alguém permite que sua experiência de vida determine sua identidade, em vez da promessa. Davi, então, não apenas restaura suas terras, mas declara que Mefibosete comeria à mesa do rei todos os dias.
Existe uma mesa preparada para os filhos. Nela há provisão, restauração, cura e tudo o que foi conquistado por Jesus. Mas muitos permanecem afastados dessa mesa porque não conseguem se ver como filhos dignos. O Pai não nos vê a partir das nossas feridas, dos nossos traumas ou das nossas limitações. Ele nos vê como herdeiros.
Acesso pleno ao Pai
Quando insistimos em nos colocar em um lugar de indignidade, afrontamos o sacrifício de Cristo. É como se disséssemos que a cruz foi bela, mas insuficiente. Não há pecado, culpa ou condenação que o sangue de Jesus não possa apagar. Jesus assumiu sobre si a nossa indignidade para que hoje tivéssemos acesso pleno ao Pai.
O sentimento de orfandade geralmente nasce da culpa, da mágoa, da falta de perdão ou de pecados não resolvidos. Coisas que deveriam ter sido deixadas para trás, mas que continuamos carregando. Além disso, o inimigo ataca diretamente a nossa identidade. Foi assim com Jesus no deserto: “Se és Filho de Deus…” A estratégia é a mesma até hoje. A tentativa é sempre gerar dúvida quanto à filiação. “Se você é filho, por que isso aconteceu?” “Se você é filho, por que essa dor existe?”
Não precisamos responder essas acusações. Não há dúvida quanto a quem somos. Outro grande obstáculo é uma compreensão distorcida do serviço cristão. Somos servos, sim. Servimos ao Senhor com amor, obediência e dedicação. Porém, o serviço nunca foi uma moeda de troca para merecer o amor do Pai. A nova aliança não é baseada em meritocracia.
Somos filhos
Não servimos para conquistar a filiação. Servimos porque somos filhos. Quando o serviço se torna uma tentativa de compensar a cruz, ele perde seu sentido. Nunca conseguiremos compensar o sacrifício de Jesus.
O serviço é resposta de amor, não barganha. A parábola do filho pródigo ilustra isso claramente. O filho mais velho permaneceu na casa, mas vivia como escravo. Trabalhava, obedecia, mas não desfrutava da herança. Quando o pai celebra o retorno do filho perdido, ele se revolta. A resposta do pai é clara: “Filho, você sempre esteve comigo, e tudo o que tenho é seu.”
Muitos estão na casa do Pai, mas vivem como escravos, sem usufruir da intimidade, do amor e da herança. Deus não quer apenas obediência mecânica. Ele deseja comunhão, relacionamento e filhos. Não precisamos ter referência humana perfeita para compreender quem Deus é. Ele não se molda às nossas experiências. Ele é Pai porque Ele é Pai.
Não somos orfãos
Podemos clamar: Aba, Pai. Conhecer o amor de Deus é o caminho para viver essa filiação. O apóstolo Paulo ora para que sejamos fortalecidos no íntimo, arraigados e alicerçados em amor, capazes de compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo.
Quando conhecemos esse amor, nossa identidade é restaurada. Filhos não vivem dominados pelo medo. Eles sabem para onde voltar. Filhos têm acesso. O Pai deseja remover pesos, curar feridas e restaurar a identidade de quem ainda vive como órfão.
O amor de Deus lança fora todo medo, dissolve a culpa e cura a dor. Somos filhos desejados, amados e aceitos. Recebemos esse amor. Abrimos mão da culpa, da ansiedade, da condenação e da falsa ideia de que precisamos merecer o que já nos foi dado. Somos herdeiros. Somos filhos. E é como filhos que caminharemos, firmados no amor do Pai.
*Trechos da mensagem do dia 07 de fevereiro de 2026, no Culto de Jovens.

