
Pastor presidente da Verbo da Vida, em Floripa (SC)
Na nossa vida comum, no lar, na vida que se chama hoje, devemos valorizar mais o tempo que nos é dado a cada dia.
Crescer na instabilidade
Eu sou filho de pais separados e carrego, predominantemente, as mais tenras lembranças junto aos dois. No entanto, enquanto crescemos, tudo nos molda. Eu cresci na década de 80, no auge da inflação. Meus pais não tinham casa própria e se mudavam de seis em seis meses. Como eram músicos, sempre viajavam a trabalho. Durante muito tempo, a sensação de insegurança me dominou. De instabilidade. De medo de não vê-los mais.
O Evangelho muda a nossa cosmovisão e nos cura de qualquer mágoa. Hoje, sei que eles só podiam me dar o que tinham e, dentro da realidade deles, me deram o que tinham de melhor. Quando penso neles, faço questão de lembrar do que há de mais positivo. Mas, como filho de Deus, também não posso deixar de analisar a minha trajetória. Eu era uma criança. Viver sem nunca saber o que esperar me assustava além da medida.
O que significa ser extraordinário
A palavra extraordinário significa fora do comum. É normal desejar o sobrenatural no casamento, nas finanças, no ministério. Mas tenho aprendido a apreciar as boas coisas da vida comum.
Nós falamos muito sobre a graça e precisamos valorizar a graça do dia a dia. Eu tenho aprendido a ver a beleza da rotina, a alegria de levar meu filho à escola, de planejar o que está por vir. Muitas vezes, caímos no erro de considerar a rotina como algo cansativo, entediante, cheio de pressão e boletos para pagar. Mas você parou para pensar que a sua vida hoje é fruto da oração que você fez no passado?
Quando eu casei, tomei um choque. Fiz as contas do meu orçamento e pensava que, casado, era só multiplicar as minhas despesas por dois: eu e minha esposa; mas não era assim. A despesa pode triplicar ou multiplicar ainda mais. Toda hora parecia a hora do imprevisto. Eu vivia irritado. Lembro de um dia dizer: “Nossa, não aguento mais pagar tanta conta!”. Na hora, ouvi o Espírito Santo me dizer: “Ainda bem que está pagando!”. Assim, entendi que deveria ser grato. A rotina não era fácil, mas que bênção quando ela flui bem.
“Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, remindo o tempo; porquanto os dias são maus” (Efésios 5.15-16).
Você está vivendo ou só pagando contas?
Você tem aproveitado bem cada oportunidade de viver a sua vida? Ou você só está vivendo para pagar conta? Em um trabalho do qual você não gosta, em uma casa que você só suporta, com relacionamentos que você só aguenta? Normalmente, sempre buscamos compreender a vontade do Senhor em relação ao chamado ministerial. Mas sabia que, quando você está em casa, com sua família, Deus tem uma vontade para sua vida?
Quando você ignora isso, suas reações em casa são apenas resultados das dores que você não tratou. Talvez você esteja desejando tanto o sobrenatural no ambiente de culto e esteja ignorando que pode ficar cheio do Espírito lavando a louça.
Cheio do Espírito lavando a louça
Lembro que, quando eu fazia o Rhema, era tudo muito limitado. Eu ia com o dinheiro da ida e sem o dinheiro da volta. Vestia as calças emprestadas do meu pai. Tudo era difícil. Lembro que eu estava estudando “Justiça de Deus”. Eu estava na cozinha, lavando a louça, e ouvi a voz do Senhor me dizer: “Abrace o meu mover!”. Eu não me sentia feliz. Mas comecei a entoar cânticos espirituais. Sem vontade, na força da persistência. De repente, comecei a dançar na cozinha. A tristeza foi embora.
Talvez, para mudar o ambiente da sua casa, você só precise praticar o que já sabe. Você pode lavar a louça reclamando do trabalho ou agradecendo por ter o que comer. Pode andar reclamando do trânsito ou ser agradecido por ter um carro. São perspectivas diferentes e que fazem toda a diferença.
A beleza da rotina
Eu sou filho de um casal sem rotina. Disciplina, para mim, sempre foi um desafio. Então, eu aprendi a amar a minha agenda diária. Fazer meu devocional, ir à academia, tomar meu café. Um dia, estava levando meu filho à escola. Eu estava no carro, brincando com ele e, em dado momento, parece que me distanciei da realidade e vi a cena como em um filme. Ali, estava uma família rindo e feliz em um carro. A presença de Deus me inundou e só soube ser grato por ter aquela riqueza.
Um dos maiores motivos do mau humor é o estado de estar sempre correndo atrás do que não temos. E o que já temos? Somos gratos por isso?
O legado que fica
Eu tinha 6 anos de idade quando os meus pais conheceram Jesus. Eu vi meu pai jogar todas as drogas no vaso sanitário e se transformar em um homem modelo. Ele acordava às cinco horas da manhã e ia caminhar. Nessa caminhada, cantarolava louvores a Deus. Agora, eu me pego chamando o meu filho para caminhar também. E, quando me dou conta, estou cantarolando os mesmos louvores que aprendi quando criança.
Meu pai não me deixou carro nem poupança, mas me deixou o legado da fé. Talvez seu filho não precise de você fora de casa o tempo todo, irritado, acumulando apenas dinheiro. Talvez o que ele mais precise é observar você. Ouvir o timbre da sua voz. Ter memórias ao seu lado. O meu pai todo dia ia ao estádio de futebol. No intervalo do jogo, ele sempre colocava a mão no meu ombro e dizia: “Meu filho, vamos!”. Ele fazia isso porque estava chegando a hora do culto. Ali, eu aprendi que está tudo bem amar o futebol, mas precisamos sempre amar mais ao Senhor.
Memórias que se constroem hoje
Quais memórias os seus filhos estão criando com você? O que ele contempla quando senta à mesa na sua casa? Nem toda cura acontece no altar. Às vezes ela começa em uma conversa honesta com quem você ama. Talvez você esteja sentindo remorso pelas oportunidades que já perdeu. Deixe-me dizer: você nunca mais terá o tempo que passou. Mas a Bíblia diz, em Joel 2.25:
“E restituir-vos-ei os anos que comeu o gafanhoto, a locusta, e o pulgão e a lagarta, o meu grande exército que enviei contra vós” (Joel 2.25).
Restituir não significa trazer de volta o que passou. Significa novos dias tão abundantes que você não sente falta do que não teve no passado. Sendo assim, que na sua casa sempre existam danças, louvores e alegrias no cotidiano, sem que seja necessário qualquer coisa além do que é maravilhosamente comum.
*Trechos da mensagem do dia 17 de maio de 2026, no Culto de Celebração.

