Fidelidade não é moeda de troca | Paulo Filho

Na vida cristã, há práticas que acontecem no dia a dia da igreja, mas possuem uma origem e um significado profundamente espirituais: congregar, servir, contribuir com dízimos e ofertas, perdoar,[...]

Na vida cristã, há práticas que acontecem no dia a dia da igreja, mas possuem uma origem e um significado profundamente espirituais: congregar, servir, contribuir com dízimos e ofertas, perdoar, caminhar em comunhão e honrar compromissos. Essas práticas apontam para Deus, e não para uma instituição ou liderança específica. Por isso, permanecer fiel a elas não significa validar tudo o que acontece ao redor, mas reconhecer a quem, de fato, estamos servindo.

Elas não existem apenas porque uma liderança merece, porque as pessoas nos agradam ou porque tudo está acontecendo como esperamos. Elas existem porque Deus nos chama à fidelidade, à comunhão, à generosidade e ao serviço. Afinal, a orientação bíblica é clara:

“Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens.” Colossenses 3:23

Por isso, quando uma frustração se transforma em abandono de um princípio bíblico, é preciso refletir: não estamos apenas reagindo a pessoas; estamos permitindo que pessoas determinem nossa obediência a Deus.

É preciso perguntar: sirvo buscando reconhecimento e, por isso, desanimo quando não sou valorizado? Dizimo por interesse e, por isso, sinto vontade de reter quando me sinto contrariado? Congrego por conveniência e, por isso, me afasto ao primeiro desconforto? Ofereço apenas enquanto estou satisfeito, e retenho minha oferta quando desejo protestar? Permaneço em comunhão apenas enquanto sou valorizado, e me afasto quando não recebo o reconhecimento que esperava?

Essas perguntas revelam que, muitas vezes, aquilo que parecia fidelidade era apenas uma relação de troca. Enquanto havia reconhecimento, benefícios, afinidade ou satisfação, havia disposição. Mas, ao surgir uma divergência, uma correção, uma decepção ou uma ferida, corre-se o risco de usar a ausência, o serviço, a contribuição ou a comunhão como instrumento de retaliação.

No entanto, servir, congregar, dizimar e ofertar não são ferramentas para punir homens, pressionar lideranças ou demonstrar insatisfação. São atos de adoração ao Senhor. A generosidade com os bens, por exemplo, é apresentada nas Escrituras como forma de honra a Deus (Provérbios 3:9; 2 Coríntios 9:7), e não como mera obrigação condicionada às circunstâncias. E a comunhão não é uma opção descartável diante de uma frustração: somos exortados a não deixar de congregar, especialmente porque a comunhão nos fortalece e nos guarda de um coração endurecido diante das dificuldades (Hebreus 10:25).

É importante fazer uma ressalva: existem situações sérias e legítimas em que é necessário buscar outro pastoreio, uma nova liderança ou uma comunidade local onde seja possível congregar com segurança, saúde espiritual e fidelidade à Palavra. Este texto não se refere a esses casos, nem incentiva ninguém a permanecer em ambientes de abuso, manipulação, pecado não tratado ou desvio bíblico.

A reflexão aqui se dirige a situações em que frustrações pessoais, preferências ou conflitos que poderiam ser tratados com maturidade passam a determinar a nossa resposta a Deus. Jesus ensinou: “Se teu irmão pecar contra ti, vai arguí-lo entre ti e ele só” (Mateus 18:15). Ainda que esse ensino trate especificamente de ofensas entre irmãos, o princípio se aplica com força a qualquer conflito: buscar diretamente quem nos feriu, e não o silêncio retaliatório. O caminho bíblico não é a retaliação indireta, mas a busca pela verdade, pela justiça e, sempre que possível, pela restauração.

Quando deixamos de praticar esses princípios como reação contra alguém, corremos o risco de desonrar não apenas pessoas, mas o Deus que estabeleceu esses princípios.

O convite aqui não é a examinar os outros, mas a examinar a nós mesmos, nossa própria disposição de honrar a Deus independentemente de sermos ou não correspondidos como gostaríamos. O cristão maduro trata seus conflitos com pessoas, sem transformar sua obediência a Deus em moeda de troca. Porque, acima de qualquer circunstância, Deus continua digno de nossa comunhão, serviço, generosidade e fidelidade.

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